segunda-feira, 27 de junho de 2011

Competência Existencial II - Leituras sobre a parábola do Filho Pródigo.

Competência Existêncial II
Leituras sobre a Parábola do Filho Pródigo (2a. parte de 2)


Ainda lendo o Filho Pródigo...

Quando uso a expressão competência-existêncial estou me referindo à capacidade e ao direito de ser. O Ser, pelo menos o ser-autêntico, é a manifestação da própria identidade em si, que contém em seu âmago uma gama de demandas e desejos que expressa a própria percepção da própria existência e do propósito. Não que eu acredite nessa coisa de propósito pré-concebido, mas pelo menos, achar algo interessante para fazer com a própria vida.
Notemos ainda que o termo competência mantém uma relação entre alvos possíveis e viáveis, e os altos ideais que impulsionam caminhadas metareais. O que eu quero dizer com isso é que a busca do impossível pode gerar na realidade coisas possíveis e magníficas, como por exemplo, uma mulher que deseja ter filhos e ao invés de gastar dinheiro com inseminação artificial, usa de seus poucos recursos para adotar dezenas de crianças. Ou alguém que deseja ser astronauta, mas torna-se um escritor de ficção cientifica. Por outro lado, um idealismo não existencial, ou seja, que gera ideais para fora da pessoa, que gera escravidão faz muito mal a alma, pois infantiliza a suas vitimas imergindo-as nas neuroses coletivas, fazendo-as de massa de manobra e gado. (Freud – Mal Estar Na Civilização)
Notemos que o filho mais velho é um fracassado. Fracassa em reconhecer seus desejos, e de lutar para realizá-los. É um fracassado por achar que merece a piedade de seu pai por ser um moço sofrido e trabalhador. Ele também fracassa porque é possuído pelo desejo, desejo de morte, pois de uma forma ou de outra, desejava que seu irmão morresse. Ele é plenamente incompetente, pois apesar de ter o direito de ser filho, comportava-se como um empregado, não porque fosse fiel, mas porque era fraco de caráter e de espírito.
O filho mais novo ao menos tinha desejos, mal direcionados, pois ignorou sua família e suas obrigações, ele buscou a beleza, o prazer e a satisfação. O filho mais novo é um pecador, mas pelo menos ele tem uma história para contar, enquanto que o filho mais velho tem apenas dores para atirar na cara do pai.
Este texto fala do pai como representação do próprio Deus. Mediante isso, existem vários tipos de pessoas, aqui existem dois tipos. Aqueles que ficam com Deus e aqueles que abraçam o mundo abandonando Deus. O problema daqueles que ficam com Deus, no caso, o problema dos judeus para quem Jesus estava falando, é que eles não tinham uma relação sadia com Deus, pois mantinham uma relação religiosa apenas e não espiritual. Note que as orações de Jesus nunca são desencarnadas, mas sempre permeadas por atitudes e ações, mesmo nas curas a distância, houve uma busca, uma ação de ir em direção a Deus, de busca da coisa em si. Aqueles que se afastam de Deus tem a chance de voltar-se para ele, arrepender dos erros e ficar feliz pelos acertos, e no final ter apenas gratidão para com o pai, que o recebe.
Por fim, o cristianismo aponta para uma vivência de plena competência existencial, pois em Cristo podemos desenvolver uma identidade plena de nós mesmos. Não apenas um servo miserável, mas ser realmente o que somos, com nossos sonhos e desejos na presença de Deus...Filho, tu sempre estás comigo, e tudo que é meu é teu. 
É por causa disso, e do moralismo idealista, que Deus é tido em nossos dias como um estraga prazeres. Pois as pessoas incompetentes não conseguem desenvolver suas vidas, seus desejos, ou são legalistas agindo como escravos miseráveis ou agindo como depravados niilistas que acabam comendo a lavagem dos porcos. No final, fica a mensagem do retorno ao pai divino, o retorno a consciência e a conversão a si mesmos.