domingo, 16 de junho de 2013

O íntimo e o social: relações familiares de pessoas transgêneras

O íntimo e o social: relações familiares de pessoas transgêneras:
Texto de Ludmila Pizarro*
A família é uma célula social. Nela aprendemos tudo que a sociedade julga importante, desde o que comer, como nos comportar, nos vestir, o que dizer em cada ocasião, até nossos valores, a noção de certo ou errado e, fundamentalmente, o que é amor. Através das relações com os nossos familiares identificamos e sedimentamos nosso lugar no mundo. As regras sociais, por isso mesmo, transformam-se em elementos onipresentes, muitas vezes opressores, no convívio com a família.
Luds (Ludymilla Santiago e Ludmila Pizarro) durante a entrevista
Ludymilla Santiago e Ludmila Pizarro durante a entrevista
Esse é um quadro comum à maioria de nós. Algumas pessoas, entretanto, apresentam comportamentos não condizentes com as expectativas familiares, na grande maioria das vezes, ligadas a padrões sociais reducionistas de normalidade. Entre essas pessoas estão as transgêneras.
Coerente com um entendimento interseccional e solidário de feminismo, iniciamos um debate de como formar famílias mais inclusivas e acolhedoras frente à diversidade de gênero. Para isso, convidamos algumas mulheres transgêneras a relatar suas relações familiares. Como não poderia deixar de ser, esse texto é dedicado a elas, que se dispuseram a refletir, junto conosco, sobre suas relações com mães, pais, irmãos, irmãs, filh@s, net@s e parceir@s. São elas: Daniela Andrade, Inês Brandt (nome fictício), Letícia Lanz e Ludymilla Santiago. A elas nossos agradecimentos.
Para início de conversa, a formação familiar 
Através das conversas com nossas entrevistadas, fica claro que a estrutura da família nos moldes atuais rechaça a transgeneridade. Para Inês Brandt, assim que a expectativa da família recai sobre aquel@ filh@ e não é atendida, um elo se rompe. “Ao nascer, já recebemos uma série de prerrogativas às quais estaremos todos ‘condenados’ a atender. Sendo trans* nós revertemos essa roda e somos pessoas estranhas, importando pouco quantas coisas boas nós quisemos fazer pela família”, afirma.
Letícia Lanz, presidenta da ABRAT, concorda com essa dificuldade, como se a condição transgênera retirasse do indivíduo seu direito a ter uma família. Daniela Andrade completa, “somos vist@s como pessoas doentes pela medicina e aos doentes não é concedido o direito de formar uma família, lembrando que outras áreas do saber, como as ciências jurídicas, pautam-se, de modo geral, sobre essa concepção para, por exemplo, nos negar o direito de adotarmos uma criança”. Segundo Letícia, o próprio Sistema Único de Saúde perpetua essa visão, já que recomenda que as pessoas trans* que passam pelo processo de transgenitalização devem “mudar de cidade e começar vida nova”, negando assim sua “verdade histórica” e ocultando o passado.
Daniela Andrade
Daniela Andrade
Além da patologização, Ludymilla Santiago aponta a objetificação sexual do indivíduo trans* como outro problema que o afasta do padrão familiar tradicional. Daniela Andrade ressalta mais esse preconceito e diz que “não somos vistos nem como homens, nem como mulheres, outrossim, minotauros: metade gente, metade animal. De forma que cerca-se de preconceitos todos os relacionamentos das pessoas trans*, vistas na maior parte das vezes de forma fetichista”.
Filhos, melhor não tê-los? 
Entre as entrevistadas, apenas Letícia Lanz tem filhos. Aos 60 anos, Letícia tem três filh@s e dois net@s e, felizmente, consegue manter uma boa relação com eles. “Nossa relação é maravilhosa. Sinto total aceitação e respeito por parte deles da minha condição transgênera”. Mas esse quadro não é o mais comum. Ludymilla Santiago assume que existe o desejo de ser mãe, mas as condições para isso são desfavoráveis. Os receios são diversos: a falta de estrutura social e financeira, o histórico de violência doméstica da família, o preconceito que a criança poderia enfrentar. “Eu não penso só em mim, eu penso no que essa criança teria que enfrentar por ser minha filha ou filho” conclui. Daniela Andrade também pondera: “pretendo antes de pensar em filhos, resolver a minha vida que ainda não pode se dizer dignificada”.
A transição e a ruptura
Os conflitos entre a estrutura familiar e a “expressão de gênero ‘transgressiva’” (como diz Letícia Lanz), se acirram durante a transição. A partir desse processo, a identidade trans* não pode mais ser negada ou ignorada. É, portanto, o momento em que as famílias normalmente definem pelo acolhimento, ou não, da condição trans* de um de seus membros. Na fala das entrevistadas uma constante é o amor que fica. Inês Brandt ao falar de seus pais, afirma que tem “profunda admiração por eles, ainda que não aceitem minha transição. Estamos em fase de ‘negociação’. Sou independente financeiramente, mas não gostaria de cortar o contato por causa disso, principalmente porque desejo cuidar deles em um futuro próximo”. Daniela, também se declara: “eu os amo muito”, mas reconhece as dificuldades. “Saí de casa, pois nunca conseguiram me aceitar como alguém que transgredia as questões de gênero. (…) Tentaram a todo custo impor-me que eu deveria negar todos meus comportamentos vistos como naturais por mim, em benefício do que a sociedade esperava”. O corte no relacionamento muitas vezes é inevitável. Ludymilla Santiago mora sozinha há quatro anos e está há sete meses sem qualquer contato com a mãe, irmãs e sobrinhos. Afastou-se por entender que também merecia respeito. “Cansei de respeitar os outros e não ser respeitada. Ninguém entende, mas eu tenho o meu direito de ser quem sou. Não preciso de aceitação, mas quero respeito. Não vou mais engolir”, completa.
O resgate do afeto
A ruptura, no entanto, nem sempre é necessária. Letícia Lanz consegue, hoje, manter um relacionamento familiar harmonioso e um casamento de 37 anos. “Particularmente, após ter assumido inteiramente a condição de trans*, tenho lutado muito para conservar a minha família e a minha relação com a minha esposa, (…) sem falar na manutenção do meu papel de pai, o respeito e admiração dos filhos”, afirma a presidenta da ABRAT.
As dificuldades também são reconhecidas por Letícia. “É raríssimo uma pessoa transgênera poder contar com o apoio da sua família durante seu processo de transição”, afirma. E explica que para conseguir o êxito é necessário redefinir a estrutura familiar, encontrar novos espaços de convivência, novas possibilidades de separar a expressão de gênero dos papeis de gênero exigidos dentro da família. “Mas hoje conseguimos lidar perfeitamente com isso. O pai e a mulher transgênera que eu sou conseguem manter bem os seus respectivos espaços, inclusive naqueles aspectos em que esses espaços se superpõem”, conclui.
Daniela Andrade também assume que em sua vida, ainda existe espaço para a convivência familiar. “Passei a ter um relacionamento mais afetuoso com minha mãe, que inclusive liga para mim dizendo que tem saudade, vez ou outra. Talvez isso tenha se dado por conta de eu ter sido a única (d@s três filh@s que ela tem) que abandonou a vivência com os demais e foi morar sozinha”.
Outra estratégia, encontrada por Ludymilla Santiago, é construir relações de apoio e solidariedade. “Meus amigos se tornaram a minha família, por afinidade”. Inês Brandt também valoriza essa rede de apoio. “Encontrei pessoas maravilhosas, trans* ou não. Elas foram fundamentais na minha nova formação”.
As expectativas por uma família (e um mundo) melhor
“Toda grande mudança começa com pequenos gestos” disse Letícia Lanz ao avaliar ainiciativa de profissionais de educação infantil, em países europeus, de diminuir as condutas baseadas no gênero das crianças. “Isso pode impactar na vida de todas as pessoas. Para as pessoas não transgêneras, de escolher livremente e entender a escolha alheia. Para as pessoas transgêneras, entender que isso é natural – ou até não pensar sobre isso, que é o privilégio das pessoas cis1”, afirma Inês Brandt. Ou, como colocado por Ludymilla, permitir “o entendimento que a sociedade não pode tentar falar por você o que você é”.
Essa parece ser uma das principais demandas das entrevistadas, tanto em relação à família como em relação à própria sociedade: mudar a forma de “compreensão social do gênero”, abandonar o binarismo simplista dos gêneros e buscar a “extinção dessa forma de categorizar e hierarquizar os seres humanos que se tornou absolutamente supérflua e dispensável no mundo contemporâneo” segundo Letícia Lanz. Daniela Andrade ressalta, ainda, o caráter violento dessa divisão, afirmando que “a medida que estereótipos de gênero forem caindo por terra, as pessoas libertar-se-ão do que eu considero a grande violência, que é o próprio gênero tal e qual está concebido atualmente dentro da sociedade”.
Além de mudanças políticas, a família está sujeita a verdadeiras revoluções através da empatia e do afeto. Inês Brandt dá a dica: “para ser uma pessoa cuidadora, basta amor. Incondicional. Devemos nos despir dessas expectativas, principalmente porque o filho que decepcionou seu cuidador pode surpreender”.
A família pode e deve proporcionar o apoio e a segurança necessários, como nesse caso. Ou como descreveu Daniela Andrade, “A família deveria ser a célula capaz de se dispor a entender e amar a pessoa trans* antes de qualquer identificação. Deveria ser o apoio e o porto-seguro para onde essas pessoas poderiam se voltar quando todo o mundo desabasse sobre suas costas: pois sim, ser trans* no Brasil é carregar o mundo desabando cotidianamente sobre nós”.
Ludymilla Santiago reconhece que “muitas vezes é necessário passar por cima de convicções, religiosidade, ou moral para entender e para respeitar a pessoa transgênera”. Porém concordamos com Letícia Lanz quando ela diz que “é essencial a gente saber que quem a gente mais ama nos compreende, nos aceita, nos respeita e nos ama COMO A GENTE É”.
Percebe-se no Brasil uma grande ausência de associações que ofereçam apoio à comunidade transgênera e aos seus familiares. Nossas entrevistadas, entretanto, citaram a Anav Trans de Brasília, o Projeto Purpurina em São Paulo e a ABRAT com sede em Curitiba.
*Com o apoio mais que perfeito de Amanda Vieira, Carolina Pombo, Cecília Santos e Sharon Caleffi. Também agradeço à Jaqueline de Jesus que me apresentou à Ludymilla Santiago.
1 – Uma pessoa cis (de cisgênero), nesse artigo, é aquela que se identifica com o gênero (masculino ou feminino) que lhe foi designado ao nascer.
Ludmila Pizarro é jornalista, apaixonada por livros e mãe da Teresa de quase 4 anos. Escreve no blog Com o pé na estrada.


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