terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Perigo dos grandes líderes religiosos


 by Marcos Henrique 

            Estive refletindo sobre o perigo que os grandes lideres religiosos representa para o processo de desenvolvimento da liberdade humana. De fato, ao ler sobre os lideres religiosos, fica patente na literatura o grande numero de escândalos que envolve essas pessoas e suas instituições. Gostaria, de refletir brevemente sobre tema segundo o viés da necessidade de gerarmos cidadãos socialmente ativos e autônomos, politicamente capacitados a refletirem e a tomar decisões pessoais, sociais e políticas dentro das possibilidades de liberdade que nos são propostas, apesar de não serem efetivas plenamente na prática.
            Antes disso, é importante refletir sobre  certo habito dos antigos grego, instituição essa conhecida como ostracismo. O ostracismo era a perda de direitos políticos por causa da fama e da notoriedade. Aparentemente parece não fazer sentido, conquanto tira das pessoas famosas e conhecidas o direito de se candidatar a cargos políticos e ou exercer poder nas assembleias. Mas o sentido disso incide no fato de que as decisões, considerando o processo democrático necessita da existência da isonomia entre os indivíduos que participam da decisão, dando justiça ao processo. É como no caso das guerras, onde as pessoas que moravam nas regiões próximas eram tiradas dos pleitos conquanto, sendo as mais prejudicadas não deveriam influencia nas decisões da coletividade. Isso parece estranho, mas evitaria no Brasil a ascensão de criaturas estranhas como o Tiririca e os pastores de segunda categoria. ‘
            O cristianismo nasce em um período posterior do processo democrático, conquanto no império Romano, apesar de ser tributário aos antigos gregos, não conseguir em seu processo administrativo mundial, ampliar o poder dos membros locais no processos decisórios, tornando-se assim muito mais aristocrático do que democrático. O cristianismo entretanto, por ter se desenvolvido em um território periféricos (palestina e Ásia menor), avançando em direção a Grécia, acaba adotando alguns elementos fortemente democráticos, conquanto até o nome de sua organização, a Eclesias, é um artefato democrático por natureza. Aliás, uma leitura do texto do livro de atos dos apóstolos deixa isso relativamente claro. Isso implica que o cristianismo não suportaria a noção de guru, conquanto seus lideres era conhecedores da fé, e portanto, não era pessoas com poderes especiais ou méritos espirituais muito além do comum. isso parece estranho se considerarmos que a igreja católica tornou esses pregadores e mestres em santos, coisas inconsistente com a mensagem cristã, de um Deus que se torna homem.
            Mas o que a Igreja Católica faz ao instituir o culto aos santos é voltar à atenção dos adeptos ao exemplo daquelas pessoas em prol da instituição. É uma forma de fortalecimento e consolidação de uma forma de heteronômia que possibilitavam manobras institucionais. Para deixar mais claro, o santo era apenas uma imagem, portadora de um mito, ou narrativa espiritual. Essa narrativa poderia ser mudada, evocada ou esquecida dependendo das necessidades institucionais. Assim, quando se deseja fazer guerra, é só lembrar o povo do exemplo de São Jorge[1], se deseja-se que o povo fique calmo, é só lembrar de São Francisco.
            Os protestantes fizeram a construção do processo de forma diferente, tanto por causa do momento histórico quanto devido às bases materiais que possibilitavam uma maior autonomia dos  indivíduos. A impressão que tenho que é que ninguém entendeu isso, e quando o capitalismo avançou, principalmente nos estados unidos da América, abre-se um ciclo, principalmente considerando os avivalistas midiáticos, a necessidade de gerar-se heróis e gurus que consigam animar o povo. Sim, eu já escutei essa frase nas igrejas evangélicas, e de fato é uma grande prioridade de pastores locais que precisam fazer a máquina eclesiástica funcionarem, aumentar a renda e o numero dos frequentadores.
            O guru contemporâneo é uma outra instância, que se aproxima muito desta noção de pastor personalista que contem e retém em si mesmo os poderes para a resolução dos problemas daqueles que o buscam.
            O leitor me perguntaria: qual o problema disso? Sim, se o sujeito, pastor ou guru, resolve meu problema, não seria isso uma coisa boa?
            Seria se fosse verdade, mas o caso é que geralmente eles não têm capacidade de resolver o problema, e quando resolvem, como no caso daqueles que tem poderes de cura (psicológicos) ou aqueles que têm habilidades com ervas e conhecimento tradicionais.
Primeiramente, o número de pessoas que morrem nessas coisas e relativamente alto, apesar de que os hospitais e médicos também não são capazes de ajudar muitos no final das contas, mas essas formas heterodoxas de cura, têm problemas sérios, e ainda, quando não funcionam, acabam atribuindo ao individuo, e não ao guru, a culpa da ineficácia do processo.
            Outro problema, que é o mais importante, é que uma vez estabelecido a relação guru x discípulo, este líder ter poderes muito fortes sobre a vida pessoal do indivíduo, de modo que a dependência impede que o individuo desenvolva as habilidades necessárias para resolver seu problemas, e o mais importantes, de perceber quando está sendo explorado ou abusado. Quando o guru prova seus poderes, é muito complicado de desconstruir na cabeça do discípulo a áurea numinosa que envolver o tal guru.
            Este texto faz parte de uma discussão maior, que é a questão da necessidade da demitologizaçao das grandes metanarraticas, a partir do período do iluminismo, em prol de se enfraquecer o poder institucional católico em prol da liberdade. Logicamente que a liberdade era para a burguesia ganha dinheiro, e o restante do processo como ciência e a filosofia veio como adendo do novo processo social que se desenvolveu a partir de então. Não que isso tenha sido ruim, porque o período anterior, baseado na estrutura nobiliárquica era bem pior em termos da desigualdade e da falta de acesso ao poder, mas que tudo teve um certe intencionalidade que deve ser destacada.
É neste mesmo período, no centro do capitalismo, acontece à ascensão dos pastes e “grandes”pregadores. Esses grandes pregadores, do passado e os atuais, sempre estiveram envolvidos em grandes escândalos, justamente porque a imagem que se constrói sobre essas carcaças é irreal e insuportável. Mediante tanto esforço e trabalho, o individuo chegará em um momento de crise onde se perguntará: se eu faço tanto bem as pessoas, se eu trabalho tanto, porque não posso ter acesso sexual a alguma das discípulas ou por que não tomar algum dinheiro para realizar um ou outro sonho? Isso considerando os bem-intencionados, porque aqueles que já começam com má intenção, fazem fortunas, praticam atrocidades de todos os tipos e nem vamos tratar sobre sua conduta sexual.
Moralismos a parte, o problema não é inventar uma seita para ter acesso sexual a discípulas mal amadas. De fato, dizem que há falta de homem no mercado, e não seria ruim ajudar sexualmente as pessoas, desde que isso seja explicitado a priore[2]. O problema é usar da confiança de pessoas que confiam em tradições antigas e respeitáveis, como a tradição cristã, católica ou protestante, ou de outras religiões que tem em seu escopo intenções realmente espirituais e sinceras.
            Como reflexão final, eu me pergunto qual é o problema da religião? Nenhum, elas em si mesma faz parte da cultura humana e da vivencia social. cada pessoas deveria ter o direito de crer e praticar o culto que melhor lhe satisfaça. Entretanto, pensando no projeto social baseado na democracia e na autonomia, devemos considerar quais formas e pensamento religiosos contribuem com o desenvolvimento de seres humanos sociamente integrados. Essa integração está relacionado não apenas ao processo e concordar com o sistema, alias, acho que ser critico ao sistema é a parte mais importante, mas que tenha a percepção de que os demais seres humanos seja diferentes em suas características e identidades, mas que acima de tudo seja seres humanos dignos de solidariedade e empatia.
            O processo de consolidação de lideranças muito fortes quebra a cadeia da isonomia entre os seres humanos, de modo a gerar a possibilidade que esse grande ser tenha mais direitos que os que demais mortais. Se em um momento histórico tais estruturas sociais foram justificáveis para consolidar grupos e cultura eu não discuto, entretanto no mundo que vivemos isso pode ser mais admitido.
            Precisamos de mestres, espirituais ou existenciais, mas que não sejam opressores nem colocados em berlidas luminosos como se fossem pessoas melhores do que as demais. Seres humanos não passam do que simplesmente são, e nada mais. Tudo que se afirma fora disso é um erro estruturador de outro erros, ilusões e desilusões...alias, querer ser igual e Deus é o pecado original, não é?


*** O texto pode conter erros de gramática ou digitação, se encontrar algum erro, me avise...


[1] São Jorge não é mais considerado como santo canônico..
[2] O mesmo pode ser dito para sacerdotiza mulheres que desejem satisfazer homem, noa que haja falta de mulher, mas que haveria uma demanda para isso.