quinta-feira, 13 de junho de 2013

O que vi nos acampamentos terenas…




            Nos últimos meses, o Mato Grosso do Sul tem passado por lutas e conflitos. Não que isso seja novidade, e não que isso fosse inesperado, mas que o conflito geralmente gera no cidadão comum confusão e opiniões contraditórias. A confusão é boa quando causa um movimento mental espiritual na busca de clareza e da estruturação de alguma ordem ao caos, ordenação das ideias e o vislumbramento de um caminho a seguir.
Gostaria, portanto de escrever sobre o que vi na minha visita ao acampamento dos índios Terena na região de Sidrolândia/Buriti no Mato Grosso do Sul, sobre o que percebi de sua luta, sobre seus rostos, suas expectativas e aproveitar para tecer alguns comentários. Que sejam as minhas impressões, mas que elas possam gerar a disposição mental no leitor para buscar mais informações a respeito do tema, antes de fechar os olhos para a questão.
            Quando saí de Campo Grande, pensei que encontraria um cenário de guerra, com pessoas armadas e agressivas como em outros espaços que já estive. Encontrei pessoas, homens, mulheres e crianças, em posição de guerra, esperando a resolução do processo. Não estavam em posição militar, não tinham armas a vista (se tinham eu não vi...), esperavam a hora do almoço simples, organizavam suas vidas, mas sempre olhando para a estrada. A guerra para eles era tomar posse fisicamente de um espaço, tornando-o seu território por sua presença.
            Percebi que eram pessoas que haviam saído de suas casas na esperança de conquistar aquilo que acreditam lhes pertencer. De fato, várias vez ouvi comentarem que os mais antigos contavam que haviam vivido naquela região, e que foram expulsos. Há de certa forma um discurso do retorno ao local de origem. Em nenhum momento foi referido algo religioso como argumento para a posse da terra, apenas que elas eram habitadas no período do pós-guerra e na época do Marechal Rondon, e depois foram sendo tomadas pela coalizão entre fazendeiros e governo local.
            Os relatos dos conflitos, da morte de Oziel Gabriel[1], das emboscadas, dos jagunços, dos enfrentamentos mostravam um pouco da coragem dessas pessoas. Quando narraram seus confrontos, falavam sobre enfrentar, sobre as façanhas de impedir a entrada na área e de sobreviverem a tiroteios, mas não ouvi nenhuma palavra sobre matar policial ou matar fazendeiro. Em outros movimentos, houve-se isso, e abandonando a hipocrisia da grande mídia, seria normal o surgimento destes discursos mais violentos.
            Todo movimento implica em violência, alias a violência física, tanto de uma parte quanto de outra, é precedida pela violência simbólica. A mídia considera o movimento como invasão, como roubo de propriedade alheia, mas curiosamente não se destaca os atos de violência perpetrados ao longo da história. É curioso como pouco se fala das consequências da guerra do Paraguai, a reordenação do território do sul do Mato Grosso, as lendas de violência, etc.
A perda de uma vida, além dos feridos é parte do alto preso do processo. É lógico que não são crianças, sabem os riscos que estavam correndo desde que saíram de suas casas, mas que mesmo assim sofrem, choram e lamentam suas perdas. É o custo existencial da busca por direitos e da busca por aquilo que consideram como justo e justiça.
            Em todos os quatro acampamentos que visitamos, fomos recebidos com orações. Sim, a maior parte destas pessoas são de origem evangélica, não poucos dos líderes são filhos de pastores ou parentes destes. Isso demonstra que um dos principais fatores que possibilitam a existência deste movimento de retomada é a escolarização, que de alguma forma propicia a cidadania. Historicamente, os evangélicos dentre os terenas tiveram melhores possibilidades de acesso a educação fundamental, e nas presentes gerações essa herança manifesta-se na busca por formação superior. Não que as igrejas evangélicas incentivem o movimento, mas que seu incentivo no sentido dos estudos gerou o efeito colateral da conscientização, como já sugeriria Paulo Freire. É pouco estatisticamente, mas rende muito em termos de transformação social.
            É interessante o quanto a cultura brasileira pode ser esquizofrênica. Reclama-se nos botequins ou cantinas de igreja, que o brasileiro é passivo, e deveria se inspirar nos argentinos que costumam ir as ruas protestar. Agora que alguns setores aprenderam a fazer isso, acusa-se os grupos que se manifestam de serem baderneiros, quem vai entender o povo?
            Não creio ser útil idealizar os terenas. São um povo com suas qualidades e defeitos, alias, são um grupo de cidadãos brasileiros normais, que estão na busca de vida melhor. Neste sentido, são exemplo para o restante da população que permanece passiva perante os problemas do dia a dia. Alias, grande parte da população não faz ideia dos problemas reais que lhes aflige, não podendo reagir contra aquilo e aqueles que lhes causam dor. Os terenas acreditam que a resolução de seus problemas virá com a posse da terra, eu diria que isso não resolverá tudo, mas ajudará o grupo em diversos aspectos.
E quanto aos demais cidadãos brasileiros? Quais as causa de seus problemas, suas dores e de sua pobreza? Identificada às causas, soluções poderão ser propostas e lutas devem ser travadas, novas lutas virão, mas é melhor sofrer lutando do que resignar.
Mudanças não virão de graça, pelo menos as mudanças positivas...



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