sábado, 2 de julho de 2011

George R.R. Martin, ou O Homem Por Detrás do Inverno…

George R.R. Martin, ou O Homem Por Detrás do Inverno…: "

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PASCOAL SOTO (editor da Leya Brasil), em julho de 2009: … e então acontecerá a festa de inauguração e a Leya entrará oficialmente no Brasil.


RAPHAEL DRACCON: Então está tudo certo para o lançamento de Dragões de Éter (na época, o volume de “Corações de Neve”)?


PASCOAL SOTO: Está sim. Será um dos primeiros livros da holding no país.


RAPHAEL DRACCON: Fico agradecido pela confiança.


Pascoal já prestes a se despedir e desligar.


RAPHAEL DRACCON: Ah, Pascoal, inclusive, se você me permitisse, eu gostaria de fazer uma indicação para a Leya, que acredito poder funcionar muito bem por aqui no futuro.


PASCOAL SOTO: Pode falar.


RAPHAEL DRACCON: Eu gostaria de lhe falar sobre um autor chamado George R.R. Martin…


***



E hoje eu gostaria de falar sobre ele com vocês também.



***


Hoje o mercado editorial se rendeu à série “Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R.R. Martin.


“A Guerra dos Tronos” já é considerado o livro do ano por aqui, ainda mais após o suceso da série da HBO.


Se você é um Sedentario fiel, você já sabia disso desde fevereiro de 2010, por causa desse post aqui, bem antes do grande público saber exatamente o que era “A Game Of Thrones”.


** Inclusive, para os Sedentários de Brasília, um aviso: Nesse sábado (02/07) estarei por aí na Livraria Cultura do Shoppng Iguatemi, a partir das 18 hs para um bate-papo sobre A Guerra dos Tronos e autógrafos de Dragões de Éter. Mais detalhes aqui. **


Entretanto, hoje nós iremos nos concentrar na figura por detrás da obra.


No homem eleito pela Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2011.


Vamos nos concentrar em George Raymond Richard Martin.


O Homem


Nascido em New Jersey, em 20 de setembro de 1948, Martin é filho de Margaret Brady Martin e um estivador chamado Raymond Collins Martin.


Como todo bom nerd, desde cedo se tornou um fanático por miniaturas medievais, livros de ficção científica, fantasia, terror e comic books, chegando a criar seus próprios fanzines.


Para se ter uma ideia da fascinação de Martin pelo tema, em 1968 ele chegou a escrever uma carta ao editor do “Quarteto Fantástico”, ao qual foi respondido e credita tal atenção a um dos estímulos para se tornar escritor.


Em outras palavras, isso quer dizer que Martin possui em sua coleção algumas daquelas histórias em quadrinhos que nós só encontramos nas listas lendárias sobre comic books que hoje valem milhares de dólares…


(Martin na primeira fila, na época nerd clichê de sofrer bullying, e em que lhe diziam que essas idiotices de quadrinhos e livros não davam futuro…)


Começou a escrever desde cedo, trocando com as crianças do bairro suas histórias por moedas. Claro que se essas crianças soubessem o quanto esses escritos iriam valer 30 anos depois, elas provavelmente teriam arrebentado todos os cofrinhos que encontrassem. O curioso era que tais histórias incluíam muitas vezes leituras dramáticas do próprio autor!


Seus autores preferidos envolviam nomes como Robert A. Heinlein, H.P. Lovercraft, Robert Howard (descobriu Conan aos 13 anos) e Tolkien.


Em 1970, aos 21 anos, Martin conseguiu vender seu primeiro trabalho profissional, “The Hero”, para o Galaxy. A história foi publicada em fevereiro de 1971 e lhe abriu caminhos.


Na mesma época se consagrou bacharel e então mestre em jornalismo pela Northwestern University, de Illinois, e chegou a dirigir campeonatos de xadrez para a Continental Chess Association.


(Não parece Stark x Lannister?)


Uma das passagens interessantes de sua vida envolve o tempo em que morava no apartamento de Margate Terrace, que funcionava como uma espécie de república. Duas pessoas, porém, eram presenças constantes junto com Martin no lugar: E. John e Dolly, ambos músicos. A dupla estava sempre indo a festas e um dia viraram para Martin e perguntaram:


“Então, Martin, que instrumento você toca?”.


“A máquina de escrever” – ele respondeu.


Como todo autor de sucesso, em início de carreira foi recusado diversas vezes, ralou como um condenado e chegou a utilizar seu quarto de hotel para chamar uns amigos prometendo cerveja, e tentar convencê-los a comprar seus livros.


(- “Pô, galera! Leva aê! Um dia eu vou ser famoso e eles vão valer uma fortuna!”


- “Ahã! Tá bom…”)


Em 1973 teve sua primeira história indicada ao Hugo e ao Nebula, “With Morning Comes Mistfall”, mas não venceu nenhum dos dois. Foi ao longo dessa década que começou a rabiscar seus primeiros romances.


Em 1976, ao perder o prêmio novamente, na 34ª WorldCon, organizou a “1ª Hugo Losers Party”.


Durante os anos 80, sua carreira tomou outro rumo e começou a escrever para televisão e trabalhar como editor de série de livros.


Na televisão, o poder de sua criatividade tomou forma em alguns episódios da lendária série “Além da Imaginação”. Escreveu outros tv shows, como “The Hitchhiker” e “The Outer Limits”, mas sem dúvida a parte mais curiosa dessa época foi vê-lo ser produotr e roteirista de episódios do antigo sériado “A Bela e A Fera”.


(Isso vai além da imaginação…)


Já como editor, cuidou por algum tempo do círculos Wild Cards, um cenário sobre seres humanos ganhando super poderes na época da Segunda Guerra Mundial, e que, se eu não estiver enganado, vinha como uma ambientação extra na edição nacional de GURPS Supers.


Na época Martin era mestre de “Superworld”, um RPG de super-heróis, em que mestrava para seus amigos e escritores de ficção científica locais.


Em 1991 iniciou o que viria ser o primeiro volume da série “Crônicas de Gelo e Fogo”, cujo primeiro volume “A Game of Thrones” só chegou a ser publicado em 1996. Apenas a partir do segundo volume a série começou a alcançar listas de livros best sellers, culminando com o elogio da crítica e de diversos autores ao redor do mundo.


Curiosamente, ele venceu um Hugo com ela.


O ESTILO


Na escrita do romancista George Martin é notável como se influencia também o seu lado roteirista.


Em “Crônicas de Gelo e Fogo”, essa influência já pode ser percebida na alternância dos pontos de vistas, feito cenas de um… bom… seriado de televisão.


Nós chegamos a acompanhar oito pontos de vistas diferentes em determinado momento, cada um com suas próprias limitações e motivações. São visões limitadas, que muitas vezes compreendem de maneiras diferentes um mesmo acontecimento e moldam a maneira de se construir as cenas.


A construção do quebra-cabeças dessas cenas também remete muito mais à experiência de um roteirista limitado por orçamentos, que sabe que não pode possuir cenas perdidas em sua estrutura, do que um romacista experimental, que pode criar cenas que nem sempre acrescentem à trama, apenas explorem o íntimo dos protagonistas.


Com Martin, não há cenas perdidas. Você não pode retirar peças de seu quebra-cabeças.


(Com Martin os personagens vivem assim: em castelos de cartas que podem desmoronar aos seus pés a qualquer momento…)


O segundo está na escrita em si. Ao se ler George R.R. Martin, reparem que raramente acompanhamos os pensamentos internos de seus personagens. Por mais que nos sejam descritos os sentimentos em reação a determinadas atitudes, nós não acompanhamos parágrafos com monólogos sobre os pensamentos dos personagens diante de uma situação. Acompanhamos sim sua reação à ela.


Martin nesse ponto remete ao mesmo artifício utilizado por escritores policiais como James Ellroy ou Dennis Lehane, por exemplo: o de trocar a revelação do íntimo de seus personagens por revelações em atitudes.


Nos livros de escritores desse tipo, nós conhecemos o caráter dos personagens pela forma com que eles se relacionam e reagem aos outros personagens. Exatamente como seria preciso no logos de um roteiro audiovisual.


A ambientação também remete a isso. Os cenários de Martin evocam tudo o que ele gostaria de poder ver em uma tela, mas nunca poderia por falta de orçamento. Ao menos na época em que aqueles livros foram escritos.


E por último, para fechar de vez tais argumentos: os diálogos.


Pegue um livro de Martin e abra em qualquer página. Leia uma de seus falas. Você irá reparar imediatamente que um escritor experiente em roteiros audiovisuais o escreveu.


Ao montar seus diálogos, toda frase contradiz ou desafia a anterior. As frases passam trechos da personalidade do personagem em questão, mas mais do que isso, sempre estão ali para alimentar o conflito.


Isso é tão evidente, que na adaptação a série pela HBO muitos dos diálogos são transcritos na íntegra.


MARTIN VS TOLKIEN


(“Quem é o mestre?”)


A nova moda das enquetes virtuais hoje em dia é essa comparação absolutamente sem sentido.


Comparar um ao outro seria como perguntar quem é melhor: Woody Allen ou Peter Jackson?


A resposta é: eles simplesmente são os melhores no que se propõem.


Tolkien concentra sua narrativa no cenário, a Terra Média é o grande protagonista de “O Senhor dos Anéis”. Conhecemos a história de sua gênese, conhecemos os detalhes do orvalho da última noite de uma árvore, se preciso. Tire seus personagens da Terra Média e a história não fará sentido. Seu senso de épico é transmitido por tais descrições e riquezas de detalhes, muito mais do que pelas ações de seus personagens.


Martin é o oposto. Seus personagens têm sua atenção. O cenário de Westeros é tão instigante e interessante quanto a Terra Média, mas ele é um coadjuvante da rede de intrigas dos homens que vivem nele. O fato de temerem a chegada do inverno influencia suas ações, mas se os tirassem de Westeros e os jogassem na Europa medieval, por exemplo, aqueles personagens continuariam fortes. Seu senso de épico não é transmitido pelas descrições e pelas riquezas de detalhes, é pelo jogo de intriga e poder em que um único ato desencandeia uma série de peças caindo de um dominó sangrento e surpreendente.


Existe uma linha que Tolkien não ultrapassa em relação a sexo, violência e falta de escrúpulos.


Martin já começa a escrever do outro lado dessa linha.



O MITO


Hoje, George R.R. Martin é considerado um novo mestre da fantasia e um dos homens mais influentes do mundo em 2011.


(Você sabe que virou popstar quando não lhe deixam tomar chuva nem em foto…)


A série criada pela HBO sobre “Crônicas de Gelo e Fogo” ultrapassou as expectativas, recebeu críticas elogiosas e obteve mais de 4 milhões de espectadores em seu piloto.


Suas aparições na ComicCon geram frisson, até mesmo suas declarações sobre Lost viram notícia (Martin foi um grande fã do seriado; Sawyer e Hugo eram seus personagens favoritos e, obviamente, ele detestou o final).


Leitores andam acendendo velas com medo de que ele faleça antes de concluir “As Crônicas de Gelo e Fogo” e chegaram a criar sites de protestos contra a demora de quase 6 anos entre um volume e outro.


Outra criação de fãs foi a Brotherhood without Banners, fã-clube oficial que Martin já elogiou pelas festas e atividades filantrópicas.


É autor de 10 romances e um livro infantil, além de coletâneas e novelas. Venceu o Hugo Award, o Nebula, o Bram Stoker e o World Fantasy.


E criou um dos personagens mais carismáticos da atual televisão: o anão Tyrion Lannister, seu personagem preferido em “Crônicas de Gelo e Fogo”.


(Apesar da preferência, Martin já avisou: “nem ele está a salvo…”)


Como se tudo isso não fosse suficiente, ele ainda tem hoje a aparência que Gandalf ou Merlin teriam se estivessem vivos.


Não é à toa que é fácil amar um autor assim.


Aliás, e por fim, outra curiosidade sobre suas preferências em Lost: Martin também não gostava do personagem Locke.


Como diz em suas próprias palavras: ele não é um homem de fé. Ele é um homem cético.


Mas se você é leitor de seus livros, eu tenho uma leve impressão de que você já sabia disso…








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