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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal é coisa de Criança - Reflexões Natalinas (3)


Natal é coisa de Criança

Reflexões Natalinas (3)


            Seguindo a discussão dos posts anteriores, gostaria de tratar aqui de uma fundamentação bíblica basica do Natal, a saber, Natal é coisa de Criança.
            Parece óbvio, mas devemos observar que o real sentido do natal é o nascimento de Jesus, que seria o salvador. Entretanto, deveríamos considera que nos textos Bíblicos canônicos existem dois natais, que apresentam quase os mesmo valores, a saber, a criança como ponto importante do processo kerigmatico e soterológico. (no final do texto eu explicarei o que isso significa...)
            Dizem os entendidos que Moises é um tipo Jesus, ou seja, ele era um exemplo de como seria o messias. Isso nos ajuda a entender, por exemplo, a necessidade de uma boa e consistente leitura do Antigo Testamento, pois é nele que estão as bases culturais daquilo que viria a ser o cristianismo.
            O ponto alto do judaísmo e do cristianismo é a páscoa, pois é ali que ambos os movimentos históricos tiveram seus pontos de efervescência simbólica. Aliás, a páscoa cristã significa a mesma coisa que a páscoa judaica, pois na judaica o povo é tirado do Egito para seguir à terra prometida, se considerarmos que Egito aparece como lugar de pecado e morte, notou que o cristianismo joga esses significados sobre o mundo, de modo que em Cristo os cristãos têm acesso à terra prometida eterna. Inúmeros símbolos são iguais, como por exemplo, a morte do primogênito, a travessia pelas águas, etc...
            Devemos considerar também que os eventos máximos não acontecem sem preparação, de modo que a crucificação não aconteceria sem ter havido anos (século?) de preparo. Um destes elementos mais importantes de preparo foi o nascimento de Jesus, que está em volto de significados muito parecido com o nascimento de Moisés, e ainda, com o nosso problema social contemporâneo.
            Moises nasce em meio a um processo infanticida que pretendia, através da morte das crianças israelitas, diminuir a população de descendentes de Abraão. A busca da manutenção do poder também levou Herodes, um deles, a fazer o mesmo com as crianças de Belém, com a finalidade de livrar-se do messias que poderia colocar em risco seus domínios sobre aquela parte da palestina. Tudo isso não tinha função religiosa, era apenas algo político, um processo covarde de eliminação de pessoas.
            Hoje, pensando que o Natal na Bíblia foi uma época de salvação e ao mesmo tempo de morte de milhares de crianças, deveríamos pensar se por algum acaso não estaríamos fazendo a mesma coisa.
            Bem, diria você, hoje temos o ECA (estatuto da criança e do adolescente) que protege as crianças, temos a lei da palmada que ainda não foi votada e ainda as bolsa famílias que dão uma força para o pessoal carente. Onde estarão sendo mortas crianças de colo? Eu mostro:
            Quando o governo não investe em hospitais, crianças de colo e não nascidos morrem por falta de atendimento e mesmo socorro, sem dizer a moda do erro médico de injetar coisa errada na veia de bebês. Quando o governo não investe em geração de empregos, faz com que pais vivam na miséria, que em si já mata muitas crianças, mas que gera o contexto onde essa criança será morta como criminosa na adolescência, ou viverá a vida toda fazendo mal as pessoas ou presa. Quando o governo não investe nas escolas publicas, deixando crianças confinadas em verdadeiros chiqueiros, com professos mal remunerados, elas não morrerão por causa disso, mas também não porão gerar filhos com perspectivas melhores que as deles.
            As igrejas ficam preocupadas com a legalização do aborto, isso é como tirar o cisco e deixar a trave nos olhos. As igrejas deveriam lutar pela melhoria da sociedade, pela geração de empregos, pelo combate a corrupção e pela promoção social. Ao invés disso estão preocupados com a vida pessoas de mulheres e adolescentes que por algum motivo não querem ter filhos, ou ainda, lutam com o direito de homossexuais que querem os mesmos direito que os demais cidadãos pagadores de impostos. A igreja não tem que concordar com nada que ela não queira (teologia é um problema institucional), mas deveria focar em coisas realmente importantes, e não nas coisas secundárias, de modo que uma vez resolvidas as primárias, desigualdade, injustiça e misérias, as secundárias estaria bem mais fáceis de serem discutidas e resolvidas.
            Neste sentido, o Natal é soterológico, ou seja, o natal tem haver com salvação. Nos tempos de Moisés, salvação foi sair da escravidão e seguir rumo a liberdade. O cristianismo foi à libertação das garras da morte e do legalismo, em direção a vida eterna. Para nós, ele funciona das duas maneiras, pois dever-se-ia libertar o cativo e aqueles que estão em situação de opressão social, ao mesmo tempo que não terminamos na materialidade, pois seguimos para uma vida eterna.
            Também, o natal é kerigmatico, ou seja, é tempo de anuncio da salvação em Cristo Jesus, pois das crianças é o reino dos Céus, e a mensagem de cristo é anunciada a elas quando as pessoas a sua volta experimenta os valores do reino. Muito mais importante que falar que Jesus Salva é demonstrar o amor de Deus ao próximo, pois Deus se manifesta por meio de nós.
            Kerigma e Sotera estão intimamente ligados. Não há anuncio sem salvação, não há salvação sem anuncio. Nada adiantaria dizer que Deus é bom, e o povo de Israel continuar sob o julgo do Egito, de nada adiantara dizer que Jesus salva, se não houvessem as comunidades que se reunião como grandes família para a pratica do cuidado fraterno e da comunhão. Por isso a igreja perde seu poder quando vira algo diferente daquilo que ela nasceu para ser.
            Natal é um tempo de preparação. Se desejarmos um futuro melhor, devemos usar o natal como momento de valorização da amizade, respeito, afeição, simpatia e amor (ágape) de modo que as crianças de hoje, aprendendo isso, possa em breve ser ato do processo de mudança da realidade. Natal é coisa de criança, assim como o futuro e a esperança...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Reflexões Natalinas (1)


            Prometi para mim mesmo escrever algumas reflexões natalinas, essa será a primeira, e sinceramente gostaria que os leitores lessem e comentassem o tema.

            Estava assistindo um programa na net[1], e eles mostravam diversos filmes sobre o natal. Duro de matar, Gremilins, e outras pérolas que remontam a época. Mas me achou a atenção de um filme frances Chamado Feliz Natal, que fala sobre uma trégua entre os soldados alemães e o soldados franceses durante um dado natal. Segundo o relato, na noite de natal um padre incitou os homens a cantarem musicas natalinas, e ouvindo isso os homens na outra trincheira imitaram a atitude, de modo que acabam forjando uma trégua.          Por um lado, pensando de forma anglo-saxã, é bacana pensar que o natal é um tempo de tréguas e de baixar as armas, mas é inútil no sentido de que ele, como momento cronológico anual, não resolve os conflitos.
No caso dos soldados alemães e francêses, suas guerras eram por suas vidas, enquanto que seus lideres encontravam-se bem resguardados em seus palácios. Lendo Karl Polanyi (A grande transformação), entendemos que todas as guerras modernas foram causadas muito mais por motivos financeiros do que por causas ideológicas puras e simples. Pensamos na segunda Grande guerra como o malvado Hitler e suas hordas, mas devemos pensar que sua busca pela conquista do mundo também está baseada na busca do domínio do capital. Ele é culpado, assim como todos os outros evolvidos, mas o mesmo problema econômicos que possibilitou o surgimento de um Hitler, poderia fazer isso não Rússia, na França, nos Estados Unidos ou mesmo no Brasil (Sergio Buarque de Holanda). Ou seja, se a estrutura econômica não muda, as guerras e a fome continuaram a existir.
No caso das relações sociais, o natal é a época das campanhas do papai Noel, doação de brinquedos. É muito bacana, ajuda a melhorar pelo menos um pouco a dureza da vida, mas o caso é que não resolve nada. A maioria destas crianças é de famílias que tem empregos muito mal remunerados, e de fato, a maioria fica até contem de ter algum emprego. Se não houver uma política séria e responsável de geração de empregos de verdade (Servente de pedreiro não é emprego, pois em alguns anos o sujeito estará tão depauperado fisicamente que não poderá trabalhar mais), a miséria será constantemente presente, de modo que enquanto algum tem mais do que necessitam, outros comem restos. Eu me pergunto: será que a vida não é assim mesmo? uns mais sortudos que outros e tudo mais? Sim, ela é. Alias, a vida é trágica porque é finita, entretanto, ao entender isso, não deveríamos nos atolar em conformismo, mas sim deveríamos trabalhar para a existência de um mundo mais justo.
Outra situação é o caso das reuniões de família. Estarei tratando disso com mais cuidado no próximo artigo, mas aqui, dentro desta discussão, a lógica das situações poderia ser aplicada. Nas ceias de natal as pessoas se reúnem, por vezes, segundo o espírito de uma trégua meio a contra gosto. Transpiram ódio e rancor uns pelos outros, mas sentam-se ali, e fingem que está tudo bem. O lado positivo disso é que aqueles que não odeia tem a oportunidade de estar com aqueles parentes que realmente fazem falta, entretanto, a sei as vezes nada resolve, pois no ano novo as relações serão as mesmas. Assim como no caso das guerras, no caso dos pobres, a vida pessoal precisa ser resolvida de forma estrutural. Se as coisas não forem acertadas, primeiramente dentro de si e depois entre as pessoas, nada adianta.
Por fim, eu realmente não acredito na humanidade e acredito piamente que se não somos animais comum por causa da capacidade mental (homo phabers, homo religios, etc...) , somos extremamente incompetentes de usar nossa capacidade racional em todas as suas potencialidades. O uso da inteligência seria uma boa saída em direção a um mundo melhor. Ao afirmar isso, não espero que as pessoas mudem seu comportamento, mas seria interessante, pelo menos, entender direito os problemas, e se por algum acaso houver a disposição de mudar, fazer isso de forma consciente e coerente.
Então, neste Natal, aproveite bem para consertar algumas coisas. Aproveite para repensar e consertar suas relações pessoais, aproveite para repensar as relações econômicas que está matando e que matará milhares de pessoas em 2012, e por fim, repense as guerras que poderão nos destruir, o quanto você é culpado e o que você poderia fazer em 2012 para que a injustiça fosse menos. Não há salvação para o mundo, mas pelo menos, podemos melhorar um pouco a realidade na qual estamos presos...


[1] Nerdoffice